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Essa semana uma amiga me surpreendeu com uma expressão no mínimo peculiar: “Por favor, me ajude. Preciso da sua Sinceridade Celisesca* para opinar sobre uma questão da minha vida”.

Às vezes eu me pego pensando que algumas pessoas vêm pra esse mundo agraciadas com o dom divino de fornecer o ouvido banco de praça. É aquele ouvido onde quem está cansado de andar pára pra descançar um pouquinho. Ou pra fazer uma horinha. E ele cumpre tão bem a função dele, que é o de estar alí, sempre a disposição de quem precisa. Mas também, não faz mais do que cumprir a sua obrigação de descanso providencial, e é por isso que muitas vezes ele faz tanto sucesso.

Nem todos possuem o ouvido banco de praça, vocês sabem disso. Mas isso só acontece porque geralmente, o ouvido banco de praça é incompatível com outro dom divino: a língua Barsa (e quem nasceu depois de 1985 provavelmente não vai entender essa analogia). A língua Barsa tudo sabe, tudo viu, tudo entende. A língua Barsa não deixa o ouvido banco de praça exercer sua função de descanso. Ela quer falar, ela quer opinar, ela quer encontrar uma solução. Às vezes ela ajuda. Às vezes ela atrapalha. Muitas vezes ela está desatualizada. Muitas vezes ela está ultrapassada. Mas outras vezes justamente por ser velha e por ter visto tanta coisa se passar e passar por ela, no final das contas, a língua Barsa estava certa desde o princípio.

Quase sempre vêm me pedir conselhos. Sobre a vida amorosa, sobre amigos, sobre emprego. Não sei bem o que eu sou, se sou mais ouvido ou se sou mais língua. Ou se sou um pouco dos dois.

O mais importante é que eu aprendi a distinguir quando procuram em mim uma poltrona confortável, ou uma enciclopédia cheia de soluções e alternativas. De qualquer forma, a vida me ensinou que nunca é sábio interferir diretamente na vida de alguém. Deus é mais criativo do que você imagina e projetou no ser humano uma infinidade de possibilidades. É ingenuidade demais querer aconselhar outra pessoa baseando-se nas próprias experiências. É ingenuidade demais querer aconselhar outra pessoa baseando-se nas experiências alheias.

Porque o mundo tem essa necessidade constante de análise e interpretação? Porque um gesto qualquer, simples ou complexo não pode significar somente o que ele é? Um bom dia apaixonado pode ser um bom dia apaixonado e não sinônimo de culpa. Um pedido de desculpas pode ser um pedido de desculpas e não desencargo de consciência. Um abraço apertado pode ser vontade de não deixar ir embora e não demonstração de posse. Uma justificativa por não ter aparecido pode ser verdadeira. Um “eu te adoro, sempre te adorei e vou continuar te adorando” pode ser amor verdadeiro e não utopia.

Que direito uma língua Barsa tem de sentenciar esses fragmentos alheios de vida? Um capítulo mal interpretado, e a língua Barsa pode reescrever histórias inteiras.

Tenho um defeito grave.

Quando tudo o que eu quero é um ouvido poltrona, coloco a minha língua Barsa pra funcionar contra mim. Não é proposital, ela com o passar dos anos, ganhou autonomia. Faz pesquisa e reescreve meus capítulos.

O que é meio injusto, já que a sinceridade Celisesca é bem altruísta. Trabalha sempre em prol do próximo e raramente ao meu favor. Vou dar o único conselho que vale a pena ser seguido, e esse está escrito em todas as línguas Barsa e rabiscado a canivete nos ouvidos bancos de praça.

O único conselheiro sincero e verdadeiro é seu coração. No fundo, ele sempre sabe o que é melhor pra você. E você percebe que ele sabe, porque ninguém consegue confundir esse sintoma tão comum: ele avisa acelerando.

* Celisesca: característica típica da Celise. No caso, eu mesma.

Resolvi escrever sobre proatividade movida por um conjunto de análises que eu andei fazendo por aí. Não é a toa que fui convidada para escrever sobre divagações, eu analiso muito. Comportamentos, atitudes, citações, frases estranhas, frases empolgadas, carinhos. Não posso dizer que isso é uma qualidade, mas não chega a ser um defeito.

E não, esse não é mais um texto chato que fala como ser um funcionário melhor agradando seu chefe, doando todas as suas brilhantes ideias para os brilhantes louros que ele vai colher mais tarde. Eu estou falando de proatividade numa área bem mais interessante do que a corporativa: Proatividade na paquera.

Eu poderia incorporar a mediadora boazinha e fazer um texto genérico, dizendo que tudo o que eu vou dizer a partir de agora serve tanto para meninos quanto para meninas.

Prefiro falar do que eu realmente entendo: o ponto de vista das mulheres. Mais especificamente, o meu. Que não é um ponto de vista tão fora do comum, sei que muitas vão se identificar (espero que muitos meninos também).

Atitude: homens precisam ter. Não vou entrar no mérito da questão: Quem deve conquistar quem. Estou falando de atitude no geral. Atitude é levar sem consultar pra onde. Atitude é dizer porque você se interessou por ela, sem poupar adjetivos lisonjeiros e/ou safados. Atitude é citar o que ela já te disse um dia pra você. Atitude é beijar sem pedir e deixar pra TALVEZ pedir desculpa mais tarde. Sentar na minha mesa de bar, pode ser a medida certa de atitude que você poderia ter pra me conquistar.

Todo final de semana, milhares de mulheres – sim, milhares. Mulheres são como Gremlins, é só tomar um banhinho, alimentar depois da meia noite que elas se proliferam – saem para exibir seus corpinhos vestidos com as mais novas aquisições da estação. Se quatro amigas cheirosas e produzidas estão numa mesinha de bar a mais de 20 minutos sozinhas, elas estão lá só pra fofocar? Não, querido. Fofocar, a gente fofoca na frente de casa, de chinela hawaiana com a vassoura na mão, catando o cocô que o cachorro do vizinho fez. Fofocar para nós é esporte prazeroso, a gente faz em qualquer lugar. Aquela produção toda, aquele perfume todo, é pra paquerar. E uma mesa de meninas distante enquanto você olha e sonha não configura um ato de paquera, não é mesmo, meliante?

Uns dias atrás, marquei de encontrar umas amigas em um barzinho. Sentamos nós, 3 espécies semi-novas, com todos os itens de série, pintura nova e polida, sem pneus novos (nem velhos, diga-se de passagem), enfim, peças dignas de qualquer coleção rara (modéstia TOTALMENTE a parte). Pouco tempo depois, aparece não um, mas dois senhores aparentemente solteiros. Um já foi abrindo a caixinha de jóias e soltando a pérola para passear: “Nossa, essa mesa parece um jardim! Boa noite, meninas”. Cumprimentou as 3 com um beijinho no rosto.  Uma das amigas me perguntou se eu conhecia, eu disse que não. E aí começa a minha análise: Eu realmente não conhecia, mas admirei a atitude. Ele entrou no bar, gostou do que viu na mesa e pensou: o que eu tenho a perder? Eu atribuo esse excesso de coragem do coroa ao fato dele realmente não ter nada a perder. No auge dos seus 60 anos ele já deve ter tomado mais foras do que remédio para reumatismo. Mas, meninos: esse é o espírito. Se o fato de você querer conversar for motivo de repúdio para alguma garota, significa que você realmente não deveria perder seu tempo e repertório de vida com alguém tão idiota.

Mais tarde, o Erasmo Carlos paraguaio até pediu pra sentar na mesa. Quer saber? Eu deixei. Afinal, eu também não tinha nada a perder. Minha intenção não era paquerá-lo, mas também não havia nenhum paquerável aquele dia. Na verdade, eu só tinha a ganhar, conhecendo alguém, o que ele tinha a me dizer, o quanto ele poderia me fazer rir. Ele poderia ser um velho reumático, mas já morou a brasa que tinha quando era um broto cheio de atitude?

Um abraço e um beijão, um pensamento ou uma lição (L)

PS: Ah, se você for o George Clooney, NUNCA deixe de sentar na minha mesa. Eu fico responsável pelo remédio de reumatismo.

Olá, leitoras do Mulherando. Eu sou a Celise e fui convidada pela Vivi para fazer a coisa que eu mais gosto, que é escrever. A segunda coisa que eu mais gosto é inventar moda, mas esse assunto vai ficar para o próximo post.

Este post é o da nova seção do Mulherando: Divagando. Tudo ando pra combinar!

Acho que muitas de vocês vão se identificar com o texto que vem a seguir. Espero que gostem. 🙂

Ontem, depois de incontáveis tentativas, consegui reunir meia dúzia de amigas pra ir ao cinema. Um programa tão comum, me fez pensar sobre uma coisa: Minha admiração pela desenvoltura e descomplicação masculina.

_ Faaaalaaaa Marcãoooo, tudo certo?!
_ Ohhh, Zé! Beelêeeeza.
_ Vamo tomá uma gelada hoje com a rapaziada?
_ Demorô. Tipo… umas 20h, no Bar do Pereira?!
_ Fechô.

Simulação de uma tentativa de reunir mulheres pra fazer a mesma coisa:

_ Oi Marcinha, Tudo bem?
_ Tudo, Dê! E com você?!
_ Tudo bem também. Viu… Vamos fazer um programa de garotas, hoje?
_ Hum… hoje? Tipo… o quê?!
_ Ah, pensei em ir lá no Bar do Pereira, tomar uma cerv…
_ No Bar Pereira? Nossa, Dê… lá é meio caído, né?
_ É que eu tava com vontade de ir em um buteco, tomar uma cervejinha…
_ CERVEJINHA? Mas hoje é quarta, não posso esculachar desse jeito com a minha
dieta, não.
_ Você pede um suco, uma Coca Zero… Sei lá, Marcinha! Vamos só pra
botar a fofoca em dia.
_ Ok, mas que horas?
_ Ah, pensei em umas 20h pra não chegar muiiiito tarde, afinal como você disse: hoje
é quarta.
_ 20h? Não dá, não. Tenho aula de Pilates às 19:30h e vai até as 20:30h.
_ Ah, belê… Então você sai do Pilates e vai direto pra lá. Vou estar te esperando às
20:30h.
_ NEM PENSAR. Você aaaaachaaaa, que eu vou direto da ginástica pro bar?
_ Ok, então marcamos as 21h. Assim dá tempo de você se arrumar.
_ 21h já é tarde…
_ Desisto, Márcia. Já vi que hoje não vai rolar… Amanhã você pode?
_ Amanhã, amanhã, amanhã… É, acho que sim!
_ Então vou ligar pras outras meninas e remarcar pra amanhã, as 20h no Bar do
Pereira. E você se vire com sua dieta… Pede uma daquelas águas chocas com gás e a sujeira do tanque de Sprite.
_ Peraí… que meninas você chamou, Dê?!
_ Ai, meu Santo Expedito… Porque, Márcia?
_ Não, só pra saber quem mais vai…
_ Chamei a Aline, a Paula, a Gisele.
_ Ah, legal… saudade de Gisele, será que ela voltou com aquele namorado idiota
dela?
_ Não sei… Então, chamei também a Kátia, a Lu, a Sabrina, a Géss…
_ O QUÊ? Você chamou a SABRINAAA?
Pausa silenciosa desconfortável de 1 segundo que parece durar um milênio.
_ Ergh, é… chamei. Tinha me esquecido.
_ Como que você se esqueceu? Dê, ela fez de tudo pra descobrir com qual vestido
eu ia na nossa formatura e comprou um igualzinho pra ela! A noite mais especial da
minha vida não foi TÃO ESPECIAL por causa dela. Aquela invejosa. A gente sabe de
longe quando a pessoa é invejosa. Olha aqui, Dê! Olha, até arrepiei. Credo em cruz!
_ Ai, Márcia… faz tanto tempo, já faz quatro anos que a gente se formou.
_ Bom, eu não vou mais. Se você quiser ir, tudo bem… Eu vou entender, afinal não foi
o seu vestido que ela copiou, foi o da SUA MELHOR AMIGA. Tudo bem.
_ Márcia, pára com isso…
_ Era uma criação exclusiva. Sabia que eu paguei pro estilista não atender uma noiva
pra me atender e…
_ … “e era um casamento da alta-sociedade”. Você já choramingou essa história mil e
quinhentas vezes. Eu vou inventar uma desculpa, desmarco com ela e aí você pode ir,
ok?
_ Tá bom.
_ Fechado! Amanhã, 20h no Bar do Pereira. Essa data vai entrar pra história, 29 de
Janeiro de 2010 – Uma noite só pra gente fofocar, que diver…
TRRRRRRIIIMMMM…
_ Dê, só um minutinho que eu preciso atender essa ligação.
_ … tido. Ok, pode atender.

5 minutos depois.
_ Dê… você vai ficar brava comigo?
_ Que foi, MÁRCIA?!
_ Poxa, o Paulinho me ligou todo fofo. E disse que queria que eu fosse na casa dele
amanhã…
_ HÃÃÃÃ…
_ … Ele quer que eu ajude a catalogar a coleção de 2.567 latinhas de cerveja que ele
tem no quarto dele…
_ Que brega.
_ Quê?!
_ Não, nada… catalogar lata-velha, e?
_ E eu vou. Hihihi.
_ Ah, se foda.
_ O QUE VOCÊ DISSE, AMIGA?
_ Se foda essa cervejada. Vou começar Pilates, amanhã. Me dá a porra do endereço da sua academia.

Obs. pras amigas: Não me inspirei particularmente em nenhuma de vocês. Na verdade, me
inspirei na particularidade de cada uma. E claro, sobretudo nas minhas particularidades.